AÇÕES PIONEIRAS DOS MOVIMENTOS CRISTÃO E ESPÍRITA

25/06/2012 09:03

AÇÕES PIONEIRAS DOS MOVIMENTOS CRISTÃO E ESPÍRITA

 

Antonio Cesar Perri de Carvalho - Ano 130 • Nº 20196 • Março 2012

As efemérides das publicações de Paulo e Estêvão (70 anos em julho) e de Viagem Espírita em 1862 (150 anos em  dezembro) merecem estudos e reflexões com vistas à transposição às situações de vida e à aplicação para a realidade atual.
Os dois livros têm foco em viagens, com diferenças de abrangência espacial e de duração temporal: em Paulo e Estêvão, o autor espiritual rememora a epopeia da trajetória de Paulo, o notável divulgador que com suas muitas viagens concretizou a disseminação do Cristianismo; em Viagem Espírita em 1862, Allan Kardec relata suas experiências de contatos diretos com os primeiros centros, caracterizando a primeira ação concreta de Movimento Espírita.Respeitadas as diferenças, ambos visitaram, apoiaram, orientaram e estimularam a formação de agremiações pioneiras.

Analisemos as duas obras que focalizam assuntos muito pertinentes aos trabalhadores espíritas de nossos tempos. Para conciliar a indulgência com a necessidade de reprimir o mal, assevera Gamaliel: 
– Toda a autoridade é de Deus. Nós somos simples instrumentos, meu filho.Ninguém se diminuirá por ser bom e tolerante. Quanto à providência mais digna, cabível no caso, é conceder liberdade a todos eles.1

Anota Kardec:

Em caso de dissidência, aquele que crer estar com a razão deverá prová-lo, sendo mais caridoso e mais benevolente. O erro estará, evidentemente, com aquele que denegrir o outro e atirar-lhe a pedra.2
Emmanuel considera que “A instituição de Antioquia era, então, muito mais sedutora que a própria igreja de Jerusalém. Vivia-se ali num ambiente de simplicidade pura, sem qualquer preocupação com as disposições rigoristas do judaísmo [...]”.3

O Codificador relata sua experiência:
[...] recolhemos exemplos admiráveis de zelo, abnegação e devotamento, numerosas demonstrações de caridade verdadeiramente evangélica que, com justa razão, poderíamos chamar: Belos traços do Espiritismo.As reuniões compostas exclusivamente de verdadeiros e sinceros espíritas, daqueles nos quais fala o coração, também apresentam um aspecto muito especial; todas as fisionomias refletem a franqueza e cordialidade; nós nos sentimos à vontade nesses ambientes simpáticos, verdadeiros templos da fraternidade [...].4

Sobre o episódio da pitonisa de Filipes, considerada um oráculo infalível e que mercantilizava seus dons: “Paulo, que nunca se conformou com a mercancia dos bens celestes, percebeu o mecanismo oculto dos acontecimentos e, senhor de todos os particulares do assunto, esperou que o visitante do invisível novamente aparecesse” e o admoestou: 

[...] por amor ao Evangelho; em nome de Jesus Cristo ordeno que te retires para sempre! Proíbo-te, em nome do Senhor, estabeleceres confusão entre as criaturas, incentivando interesses mesquinhos do mundo em detrimento dos sagrados interesses de Deus! Imediatamente a pobre rapariga recobrou energias e libertou-se da atuação malfazeja.5

Oportunos os comentários de Ismael Gomes Braga por ocasião do lançamento de Paulo e Estêvão:
 [...] Paulo de Tarso trabalhava como tecelão e Ananias como oleiro. [...] Os pregadores, os trabalhadores,os servidores da doutrina devem dar o exemplo de exercer uma profissão e nada receber pelos serviços que prestem à doutrina, ou por intermédio da doutrina aos seus irmãos em humanidade.
Livre-nos Deus do profissionalismo em Espiritismo! [...]6

Prosseguindo sobre a pitonisa, indagou Silas: “– Todavia, será o incidente uma lição para não entretermos relações com o plano invisível?”.7 Ao que Paulo
respondeu:

– Como pudeste chegar a semelhante conclusão? [...] O Cristianismo sem o profetismo seria um corpo sem alma. Se fecharmos a porta de comunicação com a esfera do Mestre, como receber seus ensinos? [...] Ninguém poderá fechar as portas que nos comunicam com o Céu. O Cristo está vivo e nunca morrerá. [...]7

E ainda citou as aparições do Cristo depois do Calvário, no Pentecostes, até mesmo quando o chamou às Portas de Damasco, e na libertação de Pedro, no cárcere.7

A prática da mediunidade merece outras observações de Emmanuel:
[...] A união de pensamentos em torno de um só objetivo dava ensejo a formosas manifestações de espiritualidade. Em noites determinadas, havia fenômenos de “vozes diretas”. A instituição de Antioquia foi um dos raros centros apostólicos onde semelhantes manifestações chegaram a atingir culminância indefinível.A fraternidade reinante justificava essa concessão do Céu. Nos dias de repouso, a pequena comunidade organizava estudos evangélicos no campo. A interpretação dos ensinos de Jesus era levada a efeito em algum recanto ameno e solitário da Natureza [...].8

Sobre a homogeneidade nas instituições Kardec observa:
[...] Naquelas, ao contrário, em que há divergência de sentimentos, onde as intenções não são inteiramente puras, em que se nota o sorriso sardônico e desdenhoso em certos lábios, onde se sente o sopro da malquerença e do orgulho, em que se teme a cada instante pisar o pé da vaidade ferida, há sempre mal-estar, constrangimento e desconfiança. [...]9

As linhas de atuação dos primeiros cristãos são destacadas: “[...] nossos serviços junto dos desfavorecidos da sorte, para que os seguidores do Evangelho, no futuro, não se arreceiem das situações mais difíceis e escabrosas, conscientes de que os mensageiros do Mestre os assistirão, sempre que se tornem instrumentos legítimos da fraternidade e do amor, ao longo dos caminhos que se desdobram à evolução da Humanidade”,10 concluindo Emmanuel: “A igreja tornou-se venerável por suas obrasde caridade [...]”.11

De forma coerente orienta Kardec: “[...] Pela prática da verdadeira caridade reconhecereis sempre um irmão, ainda que não seja espírita, e deveis estender-lhe a mão, porquanto, se ele não partilha de vossas crenças, nem por isso deixará de ser para vós menos benevolente e tolerante”,12 e complementa: “Fundai, então, uma sociedade sobre as bases da fraternidade, com ideias semelhantes! [...]”.13 A valorização das pessoas e dos colaboradores é ponderada por Emmanuel:

A existência humana é bem uma ascensão das trevas para a luz. A juventude, a presunção de autoridade, a centralização de nossa esfera pessoal, acarretam muitas ilusões, laivando de sombras as coisas mais santas. [...]14

O assunto é claro para o Codificador:
[...] nenhum entrave se oponha à propagação dessas ideias entre os seus subordinados.15
[...] Os que vissem os outros com olhos ciumentos provariam, só por isso, que estão sob má influência, desde que o Espírito do bem não pode produzir
o mal. Como bem o sabeis, reconhece-se a árvore pelos seus frutos. Ora, o fruto do orgulho, da inveja e do ciúme é um fruto envenenado que mata quem dele se nutre.16

E ainda destaca sobre o Espiritismo:
[...] sua influência é uma garantia de segurança para as relações sociais, por ser o mais poderoso freio às más paixões, às efervescências desordenadas, mostrando o laço de amor e de fraternidade que deve unir o grande ao pequeno e o pequeno ao grande. Fazei, pois, por vosso exemplo que logo se possa dizer: Praza a Deus que todos os homens sejam espíritas de coração!17

Significativa é a visão sobre a abrangência da difusão e a origem dos trabalhadores:
– Suponho que o Cristianismo não atingirá seus fins, se esperarmos tão só dos israelitas anquilosados no orgulho da Lei. Jesus afirmou que seus discípulos viriam do Oriente e do Ocidente.18

E Kardec vaticina:
[...] o Espiritismo será o traço de união que aproximará os homens divididos pelas crenças e pelos preconceitos mundanos; ele derrubará as mais fortes barreiras que separam os povos: o antagonismo nacional. À sombra dessa bandeira, que será o seu ponto de concentração, os homens se habituarão a ver irmãos naqueles que só viam como inimigos. [...]19

Interessante que, em outra obra, comenta o Codificador:
[...] A luz nova não constitui privilégio de nenhuma nação; para ela não existem barreiras, tem o seu foco em toda a parte e todos os homens são irmãos. [...]20
A coerência entre as duas obras históricas na visão sobre os trabalhadores pode ser culminada com a evocação do Mestre: “Eu, porém, no meio de vós, sou como aquele que serve”.21



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