Carta inédita, no Brasil, de Allan Kardec a Amélie-Gabrielle Boudet em 1861

07/10/2015 21:00

Carta inédita, no Brasil, de Allan Kardec a Amélie-Gabrielle Boudet em 1861 

agosto/2015 - Por Enrique Eliseo Baldovino - Jornal Mundo Espírita OnLine | Federação Espírita do Paraná 

Entre os tesouros doutrinários encontrados na França, recebidos pelo confrade Roger Perez das mãos de um descendente de Hubert Forestier, espiritista francês e antigo diretor de La Revue Spirite, durante os anos 1931-1971, que atuou no Movimento Espírita francês com o dirigente Jean Meyer (1855-1931) desde 1920, destaca-se uma raríssima Carta de Allan Kardec a sua esposa Amélie-Gabrielle Boudet – Manuscrito de quatro laudas, datado de 20 de setembro de 1861 –, missiva que foi enviada a Paris pelo Codificador, de Lyon, cidade onde o mestre encontrava-se em viagem doutrinária (2ª viagem espírita).

Recebemos este formoso presente do Secretário Geral do Conselho Espírita Internacional – CEI, Charles Kempf, a quem agradecemos pela imensa gentileza, desde que a histórica Carta foi transcrita somente na França, nas páginas da Revue Spirite, órgão oficial do CEI,1 sendo, portanto, inédita no Brasil, seja na transcrição, seja na fotografia dos originais, ora publicados, por primeira vez em língua portuguesa – presente que desejamos compartilhar com todos.

A respeito do idioma espanhol, a Carta original, além de ser transcrita, já havia sido fotografada e editada, por nosso intermédio, para os leitores hispano-falantes, e analisada na nota do tradutor nº 399 àRevista Espírita de 1861 (EDICEI), como Manuscrito muito raro, anexo especial à tradução – do francês para o espanhol – desse ano,2 documentos catalogados na França com os números 8002 e 8003, referente aos arquivos das fotos da histórica Carta.

Contexto histórico da rara Carta

Estamos em 1861, ano da 2ª viagem espírita de Allan Kardec, que percorreu, com grande sacrifício, as cidades de Sens, Mâcon, Lyon, Bordéus, entre outras, a fim de levar a Doutrina nascente ao interior da França.

Mas deixemos falar melhor ao próprio Codificador, que, na Revista Espírita de outubro de 1861, registrou o seguinte, no Banquete oferecido ao Sr. Allan Kardec pelos vários Grupos de espíritas lioneses, a 19 de setembro de 1861, lançando para a posteridade as bases dos futuros Encontros de Dirigentes e Trabalhadores Espíritas:

Mais um banquete reuniu este ano certo número de espíritas em Lyon, com a diferença de que no ano passado havia uns trinta convivas, ao passo que agora contavam-se cento e sessenta, representando os diversos Grupos que se consideram como membros de uma mesma família, e entre os quais não há sombra de ciúme e de rivalidade, fato este que notamos com prazer. A maioria dos presentes era composta de operários e todos notavam a perfeita ordem que não deixou de reinar um só instante. É que os verdadeiros espíritas têm satisfação nas alegrias do coração e não nos prazeres barulhentos. (…)3

Esses dados são confirmados no Manuscrito analisado, especialmente o grande número de convivas (mais de cento e sessenta) à reunião-banquete de confraternização entre os diversos Grupos Espiritistas, representando as várias cidades do Movimento Espírita iniciante. À época, era de praxe que os líderes dos Grupos fizessem discursos-homenagens, como as alocuções do Sr. Dijoud, do Prof. Bouillant etc., especialmente ante a presença do emérito Codificador em suas terras, fechando esse ágape histórico com oDiscurso do Sr. Allan Kardec,4 que é um primor de lucidez doutrinária, em prol da união e da unificação dos espíritas e do Movimento, conteúdo atualíssimo para os nossos dias, do qual extraímos o seguinte trecho elucidativo (p. 314):

(…) Mas isto é obra do tempo. Deixemos a Deus o cuidado de fazer vir cada coisa a seu tempo; esperemos tudo de Sua sabedoria e rendamos-Lhe graças por nos ter permitido assistir à aurora que surge para a Humanidade e por nos haver escolhido como os pioneiros da grande obra que se prepara. Que Ele se digne espalhar Sua bênção sobre esta assembleia, a primeira em que os adeptos do Espiritismo estão reunidos em tão grande número, com o sentimento de verdadeira confraternidade. (…)4

Total apoio de Amélie-Gabrielle Boudet

Um dia depois da citada reunião de confraternização espírita, isto é, na sexta-feira, 20 de setembro de 1861, de Lyon – terra natal do Codificador e cidade dos mártires –, Allan Kardec escreve a mencionada Cartaa sua esposa Amélie-Gabrielle Boudet, com um carinho comovedor, que dimensiona o profundo amor e respeito que Hippolyte Léon Denizard Rivail cultivava e sentia pela sua digna e valorosa companheira.

Amélie-Gabrielle Boudet (Thiais [Sena], França, 23.11.1795 – Paris, 21.01.1883) foi abnegada missionária, professora de Letras e de Belas-Artes, poetisa, desenhista, educadora emérita e autora de livros – Contos Primaveris (1825), Noções de Desenho (1826), O essencial em Belas-Artes (1828) –, mulher extraordinária na qual Rivail, o nosso insigne Codificador Allan Kardec (Lyon, França, 3.10.1804 – Paris, 31.3.1869), apoiou-se em todos os momentos, principalmente durante a Codificação Espírita.

A Sra. Allan Kardec tinha setenta e quatro anos, por ocasião da morte do marido. Sobreviveu-lhe até 1883, ano em que morreu com oitenta e nove anos, sem herdeiros diretos, pois não teve filhos.

Manuscrito foi finalmente enviado de Lyon a Paris, onde se encontrava a doce Gaby, como ele carinhosamente a chamava, e eis que o transcrevemos a seguir, por primeira vez num jornal de língua portuguesa.

Transcrição do Manuscrito

No raro e histórico Manuscrito Kardequiano, dirigido à sua Sra. Amélie, ressuma o grande afeto de H. L. D. Rivail pela sua amada esposa e nele encontramos dados inéditos, que merecem ser estudados no silêncio da meditação. Allan Kardec está intensamente emocionado pelo que viveu na véspera com os seus irmãos espíritas, e o conta em primeira pessoa:

Lyon 20 Sept. 1861.

Ma chère Amélie:

Je t’écris de nouveau sous l’impression de l’émotion de la journée d’hier; ce sont de ces évènements qui laissent dans la vie des traces ineffaçables. C’était, comme je te l’ai dit, le jour du banquet ; il y avait plus de 160 personnes; c’était à qui pourrait me serrer la main, me toucher même ; ceux qui ont pu me parler étaient, je crois, aussi heureux que s’ils avaient parlé à un roi ; un peu plus il y en a qui, s’ils l’eussent osé, auraient baisé le pan de ma redingote tant était grand leur enthousiasme.

Je laisse à penser si les discours ont été chaleureux. Le mien a produit une sensation profonde, ainsi que celui d’Éraste que tout le monde a justement applaudi et apprécié !

(force m’a été d’interrompre ma lettre et je ne puis la reprendre qu’aujourd’hui samedi)

Pour en revenir au banquet, c’était une chose à la fois admirable et touchante ; le commissaire de Police qui y avait été invité a pleuré d’émotion, et m’a serré les mains avec effusion. Après mes discours, j’ai parlé d’abondance pendant près de trois quarts d’heure, sans préparations, sans dessein prémédité et sans être le moins du monde intimidé devant cette nombreuse assemblée, où des personnes sont venues tout exprès de Mâcon et autres lieux pour y assister.

Hier vendredi j’ai visité des groupes sur différents points de la ville et distants de plus d’une lieue les uns des autres ; là le même accueil, le même enthousiasme ; j’ai parlé depuis 10 h ½ du matin jusqu’à 9 heures du soir, sauf l’interruption des trajets ; je suis rentré exténué.

Ce matin je suis allé prendre un bain qui m’a fait beaucoup de bien. Ce soir je vais à une autre réunion, mais plus aristocratique, où j’aurai encore bien des paroles à dire.

Ce n’est plus par centaines que l’on compte les spirites à Lyon, c’est par milliers. Partout il y a des médiums, et dans le nombre j’en ai vu des très bons. Dans l’un des groupes, il y avait un sergent de ville très bon médium et très bon spirite ; puis un forgeron, à la figure et à la tournure de cyclope, également très bon médium ; homme grave, intelligent et qui parmi les siens fait de nombreux prosélytes. Il est chef d’un groupe à Vaise, et comme je n’ai pu y aller, il y est venu ainsi que plusieurs de ses adeptes à une des réunions de la ville. En résumé, je trouve ici un progrès que j’étais loin d’espérer, et ce qu’il y a de particulier, c’est que partout on ne s’occupe du Spiritisme qu’au point de vue sérieux. Toutes les fois que j’ai entamé le chapitre des expériences physiques, j’ai vu que cela intéressait peu ; mais on était tout oreille, quand il s’agissait des conséquences morales et philosophiques. Mon voyage aura incontestablement un retentissement immense, et fera un grand bien même vis à vis de l’autorité. Le parti noir seul ne peut qu’en être horriblement contrarié !

Mon temps a tellement été pris, que je n’ai pu aller voir personne de ma connaissance. Je comptais repartir demain dimanche, mais comme je tiens à voir M. et Mme Rigolet, j’irai à leur campagne, ce qui renvoie mon départ à lundi. J’arriverai à Paris mardi à midi.

Ton bien affectionné

HLDR.1

Tradução inédita da Carta para a língua portuguesa

Lyon, 20 de setembro de 1861.

Minha querida Amélie:

Escrevo-lhe de novo sob a impressão da emoção da jornada de ontem; são esses eventos que deixam marcas inesquecíveis na vida. Como lhe dizia, era o dia do banquete: havia mais de 160 pessoas, das quais muitas vieram me cumprimentar e abraçar; outras conseguiram falar comigo, e creio que estavam tão felizes como se houvessem falado com um rei; um pouco mais e teria alguém que tivesse ousado beijar a barra do meu casaco, tão grande era o seu entusiasmo.

Ponho-me a pensar se os discursos foram expressivos. O meu produziu uma sensação profunda, assim como o de Erasto, que todos aplaudiram e apreciaram com justiça!

(Fui forçado a interromper a minha carta e somente pude retomá-la hoje, sábado.)

Voltando ao banquete, era algo admirável e, ao mesmo tempo, comovedor: o delegado de Polícia, que ali fora convidado, chorou de emoção e apertou minhas mãos com efusão. Após os meus discursos, falei abundantemente durante quase três quartos de hora, sem preparativos, sem uma intenção premeditada e sem sentir-me – no mais mínimo – intimidado perante essa numerosa assembleia, formada também por uma assistência que veio especialmente de Mâcon e de outros lugares.

Ontem, sexta-feira, visitei Grupos em diferentes pontos da cidade, distantes uns dos outros em mais de uma légua; lá aconteceu a mesma acolhida, o mesmo entusiasmo. Falei desde as 10 e meia da manhã até as 9 horas da noite, excetuando a interrupção dos trajetos; voltei extenuado.

Esta manhã fui tomar um banho, o que me fez muito bem. Esta noite vou a outra reunião, porém, mais aristocrática, onde ainda terei muitas coisas a dizer.

Já não são mais por centenas que se contam os espíritas em Lyon, senão por milhares. Em toda parte há médiuns, e entre os que tenho visto existem muito bons. Em um dos Grupos encontrei um guarda municipal que é muito bom médium e muito bom espírita. Depois tinha um ferreiro, de grande constituição física, igualmente muito bom médium: homem sério, inteligente e que, entre os seus, inspira a numerosos adeptos; ele é o chefe de um Grupo em Vaise, e como eu não pude ir lá, ele veio cá – com vários confrades seus – a uma das reuniões na cidade. Em resumo, encontro aqui um progresso que estava longe de esperar e, o que há de particular, é que por todas partes se dedicam ao Espiritismo do ponto de vista sério. Todas as vezes que abordei o tema das experiências físicas, notei que isto interessava pouco; mas todos prestavam atenção quando eram tratadas as consequências morais e filosóficas. Minha viagem terá indiscutivelmente uma imensa repercussão e fará um grande bem, inclusive perante as autoridades. Só o partido negro pode estar horrivelmente contrariado!

Estive ocupado de tal modo que não tive tempo para visitar os meus conhecidos. Tinha a intenção de partir amanhã, domingo, mas como desejo ver ao Sr. e à Sra. Rigolet, irei à sua casa de campo, o que transfere minha partida para a segunda-feira. Chegarei a Paris na terça-feira ao meio-dia.

Teu muito amado,

HLDR.2

Alguns comentários ao Manuscrito

         a) Como observamos no texto inédito no Brasil, a Carta foi escrita em dois dias, em 20 e em 21 de setembro de 1861 (sábado), pois Allan Kardec interrompeu a missiva por motivos que desconhecemos. Imaginamos que seja pelo grande cansaço físico, porque Kardec falou no dia anterior desde as 10h30 até as 21h, ante diversos públicos, viajando constantemente de um Grupo a outro por Lyon e arredores. (Entre Paris e Lyon há uma distância de aproximadamente 400 km)

b) Muito importantes as conclusões do eminente Codificador sobre os diversos assistentes aos seus discursos, público de todas as camadas sociais – principalmente da classe operária –, que se davam as mãos sob a égide da Doutrina Espírita. Observemos o destaque de Kardec ao se referir às experiências ou manifestações físicas: notou que isso interessava pouco; o interesse maior estava na questão moral e filosófica, ou seja, nas consequências ético-morais, religiosas e educacionais a que o Espiritismo conduz. Esta é também uma grande lição doutrinária para os dias atuais.

c) Kardec faz referência às profundas palavras do Espírito Erasto, muito apreciadas e aplaudidas, epístola que também consta na Revista Espírita de outubro de 1861, sob o título: Epístola de Erasto aos espíritas lioneses – Lida no banquete de 19 de setembro de 1861,5 e que o Espírito ditou na Société Parisienne des Études Spirites, especialmente para os espíritas de Lyon, antes do Codificador sair em viagem doutrinária, o que demonstra um excelente planejamento em todos os sentidos, dos encarnados e dos desencarnados. Damos, para os atentos leitores, algumas pinceladas da emotiva Epístola:

Não é sem a mais suave emoção que venho entreter-me convosco, caros espíritas do Grupo lionês. Num meio como o vosso, onde todas as camadas se confundem, onde todas as condições sociais se dão as mãos, sinto-me cheio de ternura e de simpatia, e feliz por vos poder anunciar que nós todos, que somos os iniciadores do Espiritismo na França, assistiremos com muito viva alegria os vossos ágapes fraternos, aos quais fomos convidados por João e Irineu, vossos eminentes Guias espirituais. Ah! esses ágapes despertam em meu coração a lembrança daqueles em que todos nos reuníamos, há mil e oitocentos anos, quando combatíamos contra os costumes dissolutos do paganismo romano, e quando já comentávamos os ensinos e as parábolas do Filho do Homem, morto, para a propagação da ideia santa, sobre a árvore da infâmia. Meus amigos, se o Altíssimo, por efeito de Sua infinita misericórdia, permitisse que a lembrança do passado pudesse brilhar um instante em vossa memória entorpecida, recordar-vos-íeis dessa época, ilustrada pelos santos mártires da plêiade lionesa: SanctusAlexandreAttaleEpisode, a doce e corajosa BlandineIrineu, o bispo audaz, dos quais muitos dentre vós então formáveis cortejo, aplaudindo seu heroísmo e cantando louvores ao Senhor; também vos lembraríeis de que vários dos que me ouvem regaram com o seu sangue a terra lionesa, esta terra fecunda que Eucher e Gregório de Tours chamaram a pátria dos mártires. Não os nomearei; mas podeis considerar os que, em vossos Grupos desempenham uma missão, um apostolado, como tendo sido mártires da propagação da ideia igualitária, ensinada do alto do Gólgota, pelo nosso Cristo bem-amado! (…)5[Cursiva original.]

d) A respeito dos corajosos mártires de Lyon, citados na Epístola de Erasto, discípulo de São Paulo, leia-se a nota do tradutor nº 399 em nossa tradução da Revista Espírita de 1861,2 onde elencamos dezenas de mártires lioneses, alguns infelizmente esquecidos na atualidade. Digno de nota, também, a alusão que o Espírito Erasto faz da reencarnação de alguns desses mártires de Lyon nas fileiras espíritas, sendo que vários dos que me ouvem regaram com o seu sangue a terra lionesa. E continua o seguidor do Apóstolo dos Gentios, enunciando profundas palavras que parecem ter sido pronunciadas para os dias de hoje:

(…) Hoje, caros discípulos, aquele que foi sagrado por São Paulo vem dizer-vos que vossa missão é sempre a mesma, porque o paganismo romano, sempre de pé, sempre vivaz, ainda enlaça o mundo, como a hera enlaça o carvalho; deveis, pois, espalhar entre os vossos irmãos infelizes, escravos de suas paixões e das paixões alheias, a sã e consoladora doutrina que meus amigos e eu viemos vos revelar, por nossos médiuns de todos os países. (…)5

e) Já não são mais por centenas que se contam os espíritas em Lyon, senão por milhares. O mestre lionês observa e anota os passos agigantados que o Movimento Espírita iniciante está dando no interior da França, em 1861, e que terá o seu auge na sua terceira grande viagem espírita em 1862,1 onde visitou doutrinariamente mais de vinte cidades, participando de aproximadamente cinquenta reuniões, percorrendo um trajeto de 693 léguas, que correspondem – nada mais e nada menos – a 3.862 quilômetros, nos parcos transportes da época! Sim, os seus elevados objetivos eram: levar o Espiritismo nascente ao interior da França e depois ao Exterior, conhecer o real estado da Doutrina nas várias cidades visitadas e observar a maneira como era compreendida nos seus diversos aspectos.

f) O homem Rivail-Kardec surge nestas páginas de forma cativante e comovedora. Estamos mais acostumados à faceta clássica do Codificador Allan Kardec, à sua personalidade austera – por causa da espinhosa e grande missão –, como pesquisador frio e arguto dos fenômenos espirituais e das suas lógicas consequências morais, como investigador totalmente dedicado à Doutrina, à Sociedade de Paris, à organização do Movimento, à Revue Spirite, à compilação e preparo das Obras etc.

Por outro lado, vemos na Carta um homem carinhoso, familiar, preocupado com sua esposa Amélie, com a visita aos seus conhecidos e amigos, dedicando-se com bonomia aos irmãos espiritistas e aos convivas, enfim, um pouco mais expansivo, exatamente como quando o casal Kardec reunia-se na sua residência daVille de Ségur com Pierre-Gaëtan Leymarie e demais confrades queridos, atendendo-os com bom humor, sorriso franco, largo e comunicativo, conservando-se sempre digno e sóbrio em suas expressões, segundo o registro da Biographie d’Allan Kardec, de Henri Sausse. Kardec é, portanto, um homem integral, ladeado por uma mulher integral: Amélie Boudet.

Conclusão

Ao concluir a nossa pesquisa, somos imensamente gratos ao Codificador pelo seu ingente sacrifício e pela abnegação das suas Viagens Espíritas, que ensejaram estes documentos de rara beleza, humana e doutrinária, além da criação e fortalecimento dos Grupos Espiritistas que ele mesmo ajudou a fundar e, consequentemente, a nutrir, com a sua presença física e à distância, como verdadeiro líder e vanguardista do Espiritismo.

Na retaguarda do Movimento e da família, a corajosa Amélie-Gabrielle Boudet, essa mulher notável, que tanto tem oferecido à Humanidade no seu anonimato ativo e dinâmico, ensejando ao seu esposo a dedicação total ao Ideal Maior.

Que Amélie e Allan Kardec recebam, pelo pensamento, a nossa imensa gratidão e respeito, em forma de vibrações de reconhecimento e de sincera reverência dos seus irmãos espíritas do Brasil, da Argentina e do mundo.

Referências:

1 REVUE SPIRITE. Organe officiel du Conseil Spirite International. Le Voyage Spirite de 1862 – Le Cent-Cinquantenaire. Artigo de Miguel Ramos, que transcreveu a rara “Carta de Allan Kardec a Amélie-Gabrielle Boudet” (p. 7). 4º trimestre de 2011, pp. 6 e 9.

2 KARDEC, Allan. Revista Espírita – Periódico de Estudios Psicológicos (Año IV, 1861). Anexo especial com os originais fotografados da raríssima Carta de Allan Kardec a su esposa Amélie-Gabrielle Boudet. Lyon, 20/09/1861. Tradução, do francês para o espanhol, de Enrique Eliseo Baldovino. Nota explicativa do tradutor nº 399 sobre a Carta, com transcrição e publicação do Manuscrito. Brasília, DF: EDICEI. Tradução, também nossa, da Carta, do francês para o português, e realização da pesquisa histórica sobre os mártires de Lyon. Gentileza por el envío del Manuscrito del Sr. Charles Kempf, Secretario General del Consejo Espírita Internacional – CEI.

3 ________. Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos, EDICEL, p. 309, out. 1861. Tradução de Júlio Abreu Filho.

4 Op. cit, p. 312-318.

5 Op. cit., p.319-324.